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Qual é o caminho matemático do sonho à realidade?

Teorema é uma proposição (ou afirmação) que deve ser demonstrada. Em seguida, vamos desenvolver quatro teoremas fundamentais da ciência matemática: o Teorema de Tales, o de Pitágoras, o do Cateto e o da Altura, todos com muitas aplicações. Esses quatro teoremas já eram conhecidos na Antiguidade porque surgiram da necessidade de medir terras. Sobre esta questão, o sábio grego Eudemos de Rodhes (segunda metade do século IV a.C.) escreveu em sua obra História da Geometria, da Aritmética e da Astronomia: 'A geometria foi descoberta pelos egípcios para medir suas terras, medições que eram necessárias pois as inundações do rio Nilo apagavam os limites entre terras vizinhas'. Recordemos que a palavra geometria, em grego, significa medição de terras. Durante a Idade de Ouro das ciências gregas surgiram os grandes matemáticos gregos: Tales, Pitágoras, Euclides, Arquimedes e Apolônio. Eles são alguns dos autores dos principais teoremas.
 

Miniatura de Tales de Mileto (final do século VII, meados do século VI a.C.). Ele foi matemático, filósofo, astrônomo e físico, e é considerado o mais antigo e ilustre dos Sete Sábios da Grécia

1. Teorema de Tales 

Proporcionalidade de segmentos 

Tome duas retas r e r'; na reta r assinale os segmentos a, b e c (Figura 1, abaixo). 

Figura 1

Considere uma reta que corte ambas as retas (Figura 2, abaixo). 

Em seguida, trace várias retas paralelas à reta pelas extremidades dos segmentos a, b e c

Podemos observar que na reta r' ficarão assinalados os segmentos a', b' e c' (Figura 3, abaixo). 

Figura 2
Figura 3

A cada segmento da reta r compreendido entre cada uma das paralelas traçadas corresponde um segmento sobre a reta r'. Nesse caso, foi feita uma projeção paralela. 

 

A projeção paralela como proporcionalidade direta 

Observe que quando multiplicamos um segmento da reta por um número, sua projeção paralela fica multiplicada pelo mesmo número (Figura 4, abaixo) 

Figura 4

Tome duas retas r e r'. Considere os segmentos a e b da seguinte maneira: b = 2a. Em suas projeções sobre a reta r', verifica-se que: b' = 2a', isto é, b / a = 2 e b'/ a' = 2. Isto significa que a projeção paralela é uma proporcionalidade direta. 

 

Formulação do Teorema de Tales 

Figura 5

Os segmentos determinados por retas paralelas em duas retas transversais são proporcionais (Figura 5, ao lado). 

Onde é a razão de proporcionalidade. 

Figura 6

Aplicações do Teorema de Tales 

•  Divisão de um segmento em partes iguais

Queremos dividir um segmento AB  em cinco partes iguais; observe o procedimento na Figura 6, acima. 

Segmento quarta proporcional

Dados três segmentos a, b e c, denominamos segmento quarta proporcional de a, b e c ao segmento x que verifica: 

Observe a solução gráfica na Figura 7, abaixo: 

Figura 7
Figura 8
Segmento terceira proporcional

Dados dois segmentos a e b, chamamos segmento terceira proporcional de a e b ao segmento x que verifica a seguinte proposição: 

 

Observe, na Figura 8, ao lado, a resolução gráfica. A terceira proporcional define a célebre secção áurea  empregada pelos matemáticos gregos. 

2. O Teorema de Pitágoras
Para o desenvolvimento da relação pitagórica por excelência, construa um triângulo de 3, 4 e 5 cm de lado. Com papel milimetrado, recorte três quadrados de 3, 4 e 5 cm de lado, respectivamente. Coloque-os sobre os lados do triângulo, como indica a Figura 9, abaixo: 

 

Figura 9 Figura 10

Observando as Figuras 9 e 10, ao lado, podemos deduzir geometricamente que o quadrado construído sobre a hipotenusa  tem tantos quadradinhos quantos os quadrados construídos sobre os catetos

A relação aritmética é: 

52 = 32 + 42
Figura 11

Esta relação entre os catetos e a hipotenusa é conhecida como Teorema de Pitágoras: 

Para lembrar:

Em um triângulo retângulo, a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa (Figura 11, ao lado).

Os números que verificam essa relação são chamados de números pitagóricos. 

São conhecidas cerca de 300 demonstrações do Teorema de Pitágoras. 

Figura 12
Figura 13
Figura 14

 

As Figura 12, 13 e 14, ao lado e abaixo respectivamente, mostram graficamente algumas demonstrações do Teorema de Pitágoras. 

 

Aplicações do Teorema de Pitágoras 

Quando desconhecemos um cateto
Exemplo:

Qual o valor da altura de um triângulo eqüilátero com 6 cm de lado? (Figura 15, abaixo): 

Figura 15
Quando desconhecemos a hipotenusa
Exemplo:

Num triângulo retângulo, os catetos medem 10 cm e 15 cm. Quanto mede a hipotenusa? (Figura 16, abaixo): 

Figura 16

3. Teorema da Altura
Antes de iniciar o desenvolvimento desse teorema, devemos lembrar que em todo triângulo retângulo os triângulos obtidos ao se traçar a altura correspondente à hipotenusa são semelhantes (Figura 17, abaixo): 

Figura 17

Como  e  são semelhantes, verifica-se: 

; operando, obtemos: 

h2 = n X m

Para lembrar:

O quadrado da altura correspondente à hipotenusa é igual ao produto das projeções ortogonais  dos catetos sobre a hipotenusa.
Exemplo:

Calcular a altura correspondente à hipotenusa do triângulo retângulo mostrado na Figura 18, abaixo: 

Figura 18
Figura 19
4. Teorema do Cateto
Em todo triângulo retângulo, um cateto é a média proporcional entre a hipotenusa e sua projeção ortogonal sobre ela (Figura 19, ao lado): 

Como  e  são semelhantes, verifica-se: 


; operando, obtemos: 

p2 = m X c

Para lembrar:

O quadrado de um cateto é igual ao produto da hipotenusa pela projeção ortogonal do cateto sobre a mesma.
Exemplo:
Figura 20

A hipotenusa de um triângulo retângulo mede 4 cm e a projeção de um cateto sobre ela mede 1 cm. Quanto mede o cateto?, (Figura 20, ao lado): 

Do Teorema do Cateto ao Teorema de Pitágoras 

Veja agora uma demonstração do Teorema de Pitágoras por meio do Teorema do Cateto. 

No triângulo ABC da Figura 21, abaixo, temos c2 = a X m e, analogamente, b2 = a X n

Somando membro a membro as duas igualdades: 

c2 + b2 = a X m + a X n

Isolamos o fator comum: c2+ b2= a X (m + n) e como m + n = a
Ficamos com: 

c2 + b2 = a X a

E, operando, obtemos: 

c2 + b2 = a2
Figura 21

O que demonstra o Teorema de Pitágoras. 

5. O sonho e a realidade
Finalmente, podemos responder à questão da abertura deste capítulo: 

Qual é o caminho matemático do sonho à realidade? 

Em torno desse tema, veja algumas das idéias mais brilhantes que foram criadas em Geometria. O rigor das suas demonstrações e cálculos não podem nos fazer esquecer de dois elementos fundamentais da criação do conhecimento humano: 

A idéia de que por duas retas que se interceptam passa um e somente um plano não nasceu da lógica da demonstração.
•  A idéia de que num triângulo retângulo, a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa não nasceu numa folha de papel, de um cálculo puro.
A idéia de que todos os teoremas estudados neste capítulo, por exemplo, e todos os cálculos e demonstrações feitos por matemáticos, físicos, e por todos os pensadores de diferentes áreas do conhecimento humano, não nasceram da lógica, do cálculo.
Todos esses teoremas e cálculos surgiram antes, na fantasia, na imaginação, na intuição de algum sonhador. Para serem aceitos socialmente como verdades, precisaram ser provadas.

Para lembrar:

Todo o conhecimento se inicia na imaginação, no sonho; só depois desce à realidade material e terrena por meio da lógica.

O primado da fantasia e da intuição sobre a lógica, foi bastante explicado por Albert Einstein (1879 a 1955) e provado não só pela sua produção científica, mas pelas grandes criações científicas de vários outros pensadores importantes para a evolução do conhecimento humano. 

Einstein descreve a primeira elaboração intuitiva do conceito como um sonho: 

'Todos os nossos pensamentos têm a natureza do jogo livre dos conceitos... O conceito de verdade não pode ainda ser aplicado a essa estrutura; na minha opinião, esse conceito só é aplicável quando temos à mão um acordo (convenção) que abrange os elementos e as regras do jogo.'  

Vamos sintetizar a visão de Einstein sobre a unidade existente entre intuição e lógica. A finalidade da ciência é ordenar as nossas experiências para formar uma imagem consistente da realidade. 

Mas como das experiências surgem as idéias teóricas que permitem ordená-las logicamente? Comentando o surgimento do atomismo, Albert Einstein observou: 

'Quando a água gela e se torna sólida forma-se aparentemente algo distinto da água. Por outro lado, como explicar que, ao se fundir, o gelo produz algo que não parece distinto da água original?'

Pai da teoria atomista, o filósofo grego Leucipo (460 a 370 a.C.) embaraçou-se procurando uma explicação para a mesma dúvida. Acabou concluíndo que em tal transformação a essência da água não mudara em absoluto. 'É possível, então, que a água seja constituída por partículas imutáveis (átomos) e que a mudança tenha ocorrido apenas no arranjo espacial dessas partículas', teria refletido o sábio. 

Pensando na proposição de Leucipo, Einstein conclui que o exemplo ilustra dois fatos importantes: 

O fato de que a idéia teórica (o atomismo, neste caso) não nasce independente da experiência.
O fato de que a idéia teórica também não pode ser derivada diretamente da experiêcia por um processo puramente lógico (indução ou dedução). 'Ela é produzida por um ato criador', afirma Einstein.

Este ato é a intuição, ou seja, entre as possíveis hipóteses plausíveis imaginadas, a intuição escolhe uma delas. A origem disso talvez esteja no trabalho do inconsciente humano. Einstein, numa carta ao seu amigo Maurice Solovine (1952) reafirma este ponto de vista, ilustrando-o com o seguinte esquema: 

Neste esquema: 

Os A repousam sobre as E, mas não existe nenhum caminho lógico que leve das E aos A (há um salto de natureza intuitiva).
Dos A se deduz por via lógica resultados particulares S que são postos em relação com as E; ou seja, são verificações mediante a experiência. Observe que as relações que existem entre as noções S e as experiências imediatas E também não são de natureza lógica; são intuitivas. 
EXERCÍCIOS

1. Calcular os segmentos e e f da Figura 22 considerando o valor de a, b, c e d.
 
  Figura 22

2. Calcular a medida dos catetos de um triângulo retângulo se sua hipotenusa mede 12 cm e a projeção de um cateto sobre ela tem 3 cm.

3. Achar a altura relativa à hipotenusa de um triângulo retângulo sabendo que as projeções de seus catetos sobre a hipotenusa medem 16 cm e 5 cm, respectivamente.

4. Calcular o valor de um cateto de um triângulo retângulo sabendo que a hipotenusa mede 12 cm e o outro cateto 4 cm.

5. O lado de um quadrado mede 12 cm. Quanto mede sua diagonal?

6. Em que altura de uma parede toca uma escada de 10 m se sua base está situada a 6 m da parede?

 


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