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Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. |
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| Do cinema marginal à pornochanchada |
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Cinema marginal
 | | | Cena do filme O bandido da luz vermelha |
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No final dos anos 1960, surge o cinema marginal, também conhecido como o cinema da 'boca do lixo' ou underground. Nessa época, a cultura do país fervilhava com o teatro oficina, o cinema novo e o movimento tropicalista, que influenciou todos os campos da arte, especialmente a MPB (música popular brasileira). Por outro lado, o Brasil vivia sob o regime militar, que instaurou o fechamento político e reprimiu a liberdade de expressão das ideias nutridas durante a década de 1960.
Os cineastas do cinema marginal pregavam, em meio à repressão da Ditadura Militar, a contracultura e a antiestética, na esteira da rebeldia cultural dos anos 1960. Assistia-se à verdadeira rejeição do cinema bem-feito em favor da tela suja e a estética do lixo. Segundo seus criadores, a estética do lixo era “o estilo mais apropriado para um país do Terceiro Mundo, na medida em que possibilita a transformação das sobras de um sistema internacional dominado pelo monopólio capitalista do primeiro mundo”.
Caldeirão cultural
É nesse caldeirão político-cultural, sob o regime ditatorial, que o cinema marginal encontrou solo fértil para se desenvolver. A fonte de inspiração desse movimento foi o filme A margem (1967), de Ozualdo Candeias, cineasta paulista que, antes de se aventurar no cinema, já havia trabalhado como caminhoneiro.
Com muitas cenas rodadas às margens da avenida expressa Marginal Tietê e em locações repletas de lixo urbano na grande São Paulo, a película é um retrato grotesco e irônico do sistema capitalista, ao mostrar a vida de pessoas que vivem à margem da sociedade na maior capital do país. Mesclados a uma narrativa não linear, entrecortada por pequenas histórias, esses elementos de estilo definiram os moldes do que, futuramente, seria chamado 'cinema marginal'.
Em 1968, a produção do cinema marginal se firma no país. Muitos filmes são realizados, mas poucos chegam a entrar em cartaz, devido à censura do regime militar. No entanto, O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla, alcançou grande sucesso de público e ganhou vários prêmios em festivais nacionais naquele ano.
Quadrinhos, propagandas e tropicalismo
O cinema marginal retrata a situação cultural e social de um Brasil por meio de elementos estéticos, como histórias em quadrinhos, transmissões radiofônicas, televisão, propagandas, romances, imprenssa sensacionalista e uma boa dose de tropicalismo. As formas toscas e debochadas são exaltadas nesse movimento cinematográfico.
O objetivo dos jovens cineastas filiados a essa corrente era contestar os costumes e romper com a linguagem fílmica linear, em vez de se ater ao processo político e social pelo qual passava o país. O cinema marginal é a cinematografia que apresenta a vertente consumista da sociedade, apoiada num modelo de filme pobre que questiona a política cinematográfica de produção vigente e seu modelo padrão.
Nesse movimento, os cineastas desfrutam, sem amarras, de toda a liberdade criativa. Bons exemplos do cinema marginal são, além do aclamado O bandido da luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla; Câncer (1968), de Glauber Rocha; Jardim de guerra (1968), de Neville d'Almeida; Hitler no III Mundo (1968), de José Agripino de Paulo; e as obras Matou a família e foi ao cinema (1969) e O anjo nasceu (1969), de Júlio Bressane. Essas películas experimentais, ao retratarem a verdadeira situação do país de maneira ousada e debochada, rompem com o intelectualismo do cinema novo para alcançar o grande público.
O cinema marginal tem como base de linguagem o apelo, que deixa de lado os valores éticos e culturais para esbanjar o grotesco e o erotismo bem acentuados. Devido a essas características, poucos filmes desse movimento puderam ser assistidos na época. No entanto, alguns foram revelados, como Bang-bang (1970), de Andrea Tonacci; Os monstros de babaloo (1970), de Eliseu Visconti; Viagem ao fim do mundo (1968), de Fernando Coni Campos; e Jardim de espumas (1970), de Luiz Rozemberg Filho.
O terror 'trash'
O grupo do cinema experimental era fã de autores americanos, como Samuel Fuller e Orson Wells, ou de mestres ingleses que fizeram carreira nos Estados Unidos, como Alfred Hitchcock. Entre os cineastas do cinema marginal, José Mojica Marins, conhecido popularmente como Zé do Caixão, é um dos mais representativos do gênero, devido ao estilo grotesco e disforme, ao esquema de produção rápido, à linguagem simples e precária, com a exaltação de sangue, mortes e gritos, que adota em seus filmes. Mojica dirigiu clássicos do terror 'trash', como Esta noite encarnarei em teu cadáver (1967), Exorcismo negro (1974) e Inferno carnal (1977).
Sucesso comercial
Os principais diretores do cinema marginal eram cariocas, baianos, mineiros e paulistas. Em busca do sucesso comercial, esses cineastas romperam com os esquemas de produção da época, realizando muitos filmes de forma independente. Rogério Sganzerla, um dos mais representativos realizadores do movimento, alcançou bom sucesso comercial com seus dois primeiros filmes produzidos de forma quase independente.
O dinheiro recebido por Sganzerla foi aplicado na criação da produtora Belair junto com Júlio Bressane, que empregou suas finanças pessoais. A Belair conseguiu boa inserção no mercado de exibição e produziu vários longas e curtas que representam os traços mais radicais da narrativa cinematográfica do grupo marginal, como Barão Olavo, O horrível, Família do barulho e Cuidado, madame, dirigidos por Bressane, e Betty Bomba, A exibicionista, Copacabana mon amour e Sem essa, Aranha, de Sganzerla, todos realizados em 1970. Ícones à margem
Além de Sganzerla, o movimento paulista foi representado por Ozualdo Candeias, que, depois de A margem (1967), também filmou Meu nome é Tonho (1969) e A herança (1971); por Andréa Tonacci, que idealiza Bang-bang (1971); e por João Silvério Trevisan, que dirigiu Orgia ou o homem que deu cria (1970). No Rio de Janeiro, destaca-se, junto com Bressane, o carioca Elyseu Visconti, realizador de Os monstros de Babaloo (1970) e Lobisomem, terror da meia-noite (1971).
Os diretores Neville d´Almeida, Sylvio Lanna, João Batista de Andrade e Geraldo Veloso faziam parte da divisão mineira. O movimento do cinema marginal possuía em algumas regiões do país centros de produções, como a Boca da Fome, no Rio de Janeiro, a Boca do Inferno, em Salvador, e a Boca do Lixo, em São Paulo.
A atriz baiana Helena Ignez foi a musa desse metiê. Com seu estilo próprio de atuar, debochado e extravagante, tornou-se um ícone do movimento experimental, em filmes de Rogério Sganzerla, Glauber Rocha e Júlio Bressane. O ator Paulo Villaça, que encarna o bandido da luz vermelha e outros personagens em películas como Perdidos e malditos (1970), de Geraldo Veloso, Copacaba mon amour (1970), de Rogério Sganzerla, e Mangue banguê (1971), de Neville D'Almeida, foi outro grande intérprete das cinenarrativas marginais.
A maioria dos filmes do cinema marginal não era incluída nos principais festivais de cinema do país, sob a alegação de que sua linguagem era extremamente experimental e suas produções, sem condições técnicas, eram precárias. A resposta dos realizadores era o deboche nas telas e a organização de mostras paralelas. Em Brasília, a primeira iniciativa foi a I Mostra de Horror Nacional.
O fim do ciclo marginal aconteceu no início dos anos 1970, devido ao endurecimento do regime militar, que obrigou boa parte dos cineastas a se exilar na Europa. No final da década, os filmes marginalizados começaram a se tornar cults e vários festivais foram criados para divulgar essas películas a Semana do Cinema Maldito em Ipanema, a Semana do Cinema Marginalizado Brasileiro, a Mostra do Cinema e o Ciclo de Cinema Bandido.
A pornochanchada
A pornochanchada surge no fim dos anos 1960 e tem seu apogeu em meados dos anos 1970. É definida como um gênero cinematográfico que mescla comédias de costumes com erotismo leve e paródias ao cinema erótico europeu e americano. Esse ciclo do cinema nacional sobreviveu por mais de 15 anos e só pôde existir porque contava com o apoio do mercado exibidor.
Para atrair o grande público, a Boca do Lixo paulista torna-se o centro de produção nacional de pornochanchadas. Combatida por muitos como pornografia e defendida por outros como filmes eróticos recheados de humor – nada mais do que um meio de gerar empregos e renda para o cinema no período –, a pornochanchada tem um grande êxito popular nos anos de chumbo da ditadura brasileira.
Um marco da pornochanchada é A dama do lotação (1978), de Neville D'Almeida, diretor que rompe com a produção marginal ao voltar do exílio. Com Sônia Braga no papel-título, o filme se torna uma das maiores bilheterias do cinema nacional, com 7 milhões de espectadores.
Além dos movimentos
Nos anos 1970, cineastas remanescentes do cinema novo e diretores estreantes realizam filmes que buscam uma maior aproximação com o público e mais liberdade ideológica em suas narrativas. Essas fitas não se vinculam a nenhum movimento cinematográfico, pois são influenciadas por vários gêneros, como a comédia, o erotismo ou elementos do cinema novo.
São obras que retratam as transformações e contradições do Brasil naquela década, a exemplo de Como era gostoso o meu francês (1970), de Nelson Pereira dos Santos; Os inconfidentes (1972), de Joaquim Pedro de Andrade; São Bernardo (1972), de Leon Hirszman; Toda a nudez será castigada (1973) e Tudo bem (1978), de Arnaldo Jabor; Lição de amor (1975), de Eduardo Escorel; e Bye bye, Brasil (1979), de Cacá Diegues, entre outros.
Em meio a essas produções, merece destaque Dona Flor e seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto, filme de maior sucesso do cinema brasileiro até 2010, por ter alcançado mais de 10 milhões de espectadores.
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