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Entre os muros da escola





KlickeducaçãoQual deve ser a atitude de professores e gestores diante da violência escolar?
Abramovay – Eles se sentem acuados, têm medo e, por isso, não sabem o que fazer. Mas não há uma postura única. Muitos acham que melhorias podem ser feitas, isso é algo que está se discutindo. Há várias recomendações. O primeiro passo é fazer um diagnóstico sobre a violência no ambiente escolar. Já temos levantamentos sobre a qualidade do ensino. É preciso combinar o diagnóstico do ensino com o da violência nas escolas; esses dados associados irão servir como parâmetro para as políticas públicas. No Brasil, não existe um diagnóstico do MEC sobre a violência nas escolas. O Distrito Federal foi o primeiro a realizar uma pesquisa sobre essa questão. A segunda recomendação é que se mude a estrutura das escolas. É preciso que haja mais participação dentro do ambiente escolar e que se adote uma política pública baseada no diagnóstico.

Klickeducação – Como mudar essa estrutura?
Abramovay – Hoje temos uma educação autocêntrica, baseada em modelos restritivos e punitivos, que não promovem avanços nas escolas. As escolas devem dar mais voz aos jovens, para que eles possam falar sobre esse espaço, democratizando as relações sociais dentro do ambiente escolar. Essa democratização permitirá que se discutam as regras da escola com alunos e pais. O que se pode fazer? Vale a pena para os jovens organizar um grêmio? Trazer o hip hop ou outra atividade cultural é bom? O importante é a escola abrir o diálogo com os alunos e suas famílias. Programas de mediação escolar de conflitos também são produtivos se puderem ser levados para dentro da escola. É fundamental que as escolas possam 'derrubar seus muros', abrir as 'portas do seu olhar' para a realidade do cotidiano.

KlickeducaçãoAté que ponto a violência contribui para evasão escolar?
Abramovay – O clima escolar contribui muito para que as pessoas frequentem ou não a escola. A violência pode até ser a própria forma de ensinar dentro da escola. Uma recente pesquisa aponta que 30% dos jovens de classe média deixam as escolas porque não têm mais interesse em estudar.


Klickeducação – As tecnologias, como câmeras e internet, podem ajudar a combater a violência?
Abramovay – O uso da internet tem de ser discutido nas escolas. O mau uso causa humilhação, já que o alcance não é pequeno, pois hoje a difusão é globalizada. Basta ver no You Tube. Por outro lado, as tecnologias que estão sendo utilizadas são fundamentais. As lan houses são um passo excepcional.

Klickeducação – De acordo com a pesquisa, qual foi a porcentagem de ciberviolência nas escolas?
Abramovay – Entre os alunos, 37% dizem que já sofreram esse tipo de violência e 17,5% admitem que já a praticaram. As agressões mais comuns são xingamentos, ameaças, e fazer se passar por outra pessoa. Há casos de professores insultados por alunos, divulgação de fatos pessoais, chantagem e invasão de e-mails.

Klickeducação – Qual é o papel da polícia no combate à violência nas escolas?

Abramovay – A polícia tem um papel de segurança pública, fora da escola.

Klickeducação – O que gera a intolerância às diferenças?
Abramovay – A não aceitação da diversidade. Não se tolera o outro por ser diferente. A escola tem de trabalhar muito essa questão. A sociedade é intolerante e a escola reproduz esse modelo. A escola é homofóbica porque a maioria dos profissionais que nela trabalha não aprendeu o que é homofobia. A escola fica num ciclo onde se produz e se reproduz.

Klickeducação – Quais são os preconceitos mais frequentes nas escolas?
Abramovay – A homofobia, o racismo, o preconceito contra deficientes, de gênero, classe social, local de moradia, contra nordestinos, negros, vestimenta. Desde maio, estamos ministrando, pela Secretaria de Educação do Distrito Federal, cursos de formação continuada para 640 professores da rede pública sobre os temas violência, discriminação, relação com alunos, juventude, ética. O programa tem duração de nove meses e carga de 180 horas, 140 presenciais e 40 horas indiretas. No ano que vem pretendemos dobrar o número de participantes, no segundo curso, que terá 200 horas. O conteúdo foi elaborado como uma resposta à demanda dos professores que estavam buscando novas formas de educar.



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